Retratutida será o melhor remédio para emagrecer?
- Dr. Gabriel Magalhães

- há 16 horas
- 4 min de leitura

Se você acompanha o universo da medicina do emagrecimento, já sabe que os últimos anos foram uma verdadeira revolução. Primeiro veio a semaglutida (Ozempic/Wegovy), depois a tirzepatida (Mounjaro/Zepbound) — que muitos já consideravam o melhor remédio para emagrecer disponível até então. E agora, uma nova molécula chega para agitar ainda mais esse cenário: a retatrutida.
O nome ainda soa estranho para a maioria dos pacientes, mas já ganhou destaque na mídia por causa de falsificações ilegalmente comercializadas. Nos bastidores da endocrinologia e nutrologia, ela já é tratada como potencial protagonista da próxima geração de tratamentos para obesidade. E os números dos estudos clínicos justificam essa empolgação, com uma ressalva importante, que vou explicar ao longo deste artigo.
O que é a retatrutida e como ela funciona?
A retatrutida é uma molécula desenvolvida pela farmacêutica Eli Lilly, a mesma fabricante do Mounjaro. Diferente da semaglutida (agonista simples de GLP-1) e da tirzepatida (agonista duplo de GLP-1 e GIP), a retatrutida é um triplo agonista: ela age simultaneamente em três receptores hormonais:
GLP-1 (peptídeo semelhante ao glucagon tipo 1): reduz o apetite e promove saciedade;
GIP (peptídeo inibidor gástrico): melhora o metabolismo lipídico e potencializa a ação do GLP-1;
Glucagon (GCGR): aumenta o gasto energético e estimula a queima de gordura, especialmente a gordura visceral e hepática.
Essa combinação inédita de três mecanismos é o que torna a retatrutida qualitativamente diferente de tudo que existe no mercado até hoje. Enquanto a tirzepatida "imita" dois hormônios, a retatrutida imita três. E o glucagon, em particular, tem um efeito relevante que os outros fármacos não possuem.
O que os estudos mostram sobre a retratutida?
Os dados publicados nas fases 2 dos estudos clínicos são, para usar um termo técnico adequado, impressionantes. Em um estudo de fase 2 publicado em 2023 no New England Journal of Medicine, uma das revistas científicas mais respeitadas do mundo, a retatrutida demonstrou:
Perda média de ~24% do peso corporal, em 48 semanas nos grupos de maior dose;
Em alguns subgrupos, reduções superiores a 26-28% do peso foram documentadas;
Efeitos expressivos sobre gordura visceral, esteatose hepática e marcadores metabólicos.
Para contextualizar: a semaglutida (Wegovy) promove em média 15-17% de perda de peso em 68 semanas. A tirzepatida alcança ~22-25% em 72-88 semanas. A retatrutida, nos estudos de fase 2, superou esses números e em menos tempo.
Não à toa, há relatos de participantes que precisaram ser removidos dos estudos porque emagreceram além do esperado. Isso raramente acontece em pesquisas de emagrecimento.
Retatrutida vs. semaglutida vs. tirzepatida: como comparar?

Vale ressaltar que comparações diretas entre as três moléculas ainda não existem em estudos head-to-head publicados. O que temos são dados de ensaios clínicos distintos, com populações e metodologias diferentes. Mesmo assim, a tendência é clara: cada geração tem superado a anterior em magnitude de efeito.
Se você já usa ou considera usar caneta emagrecedora e está se perguntando se deve "esperar" pela retatrutida, a resposta honesta é: depende do seu momento clínico atual. Não há razão para adiar um tratamento eficaz hoje na esperança de uma molécula ainda sem aprovação regulatória.
Quando a retatrutida chega ao Brasil?
Aqui é onde a empolgação precisa ser temperada com realismo clínico.
A retatrutida ainda está em fase 3 dos estudos clínicos, a etapa que avalia eficácia e segurança em larga escala antes da aprovação regulatória. Isso significa que:
Ela não está disponível para uso clínico em nenhum país do mundo neste momento;
Não existe aprovação da FDA (EUA), EMA (Europa) ou ANVISA (Brasil);
Não deve ser prescrita, manipulada ou adquirida por vias não oficiais.
Estima-se que, se os estudos de fase 3 confirmarem os resultados da fase 2, a aprovação regulatória possa ocorrer a partir de 2026-2027 nos EUA, com chegada ao Brasil em prazo a ser definido. Quem estiver utilizando versões manipuladas ou não aprovadas da retatrutida está assumindo riscos desconhecidos e desnecessários.
Efeitos colaterais da retratutida: o que sabemos até agora?
Os efeitos adversos mais frequentes nos estudos de fase 2 foram similares aos já conhecidos com GLP-1:
Náuseas, vômitos e diarreia (especialmente no início do tratamento);
Constipação intestinal;
Diminuição do apetite intensa (que pode exigir atenção ao aporte proteico).
O perfil de tolerabilidade parece razoável, com redução dos sintomas ao longo do tempo. Mas lembrando: o monitoramento de longo prazo, essencial para avaliar a segurança cardiovascular, pancreática e renal, ainda está em andamento. É justamente isso que a fase 3 irá estabelecer com mais robustez.
O que fazer enquanto a retatrutida não chega?
Essa é a pergunta mais prática e mais importante. A resposta é simples: tratar agora com o que está disponível e aprovado.
A tirzepatida já demonstra resultados extraordinários no consultório. Pacientes com indicação clínica adequada conseguem perdas de peso expressivas, com melhora metabólica significativa, desde que o tratamento seja conduzido corretamente, com alimentação adequada, atividade física regular, sono de qualidade e acompanhamento médico especializado.
Além disso, como alerto frequentemente: parar o remédio para emagrecer sem um plano de saída estruturado é um dos maiores riscos de reganho de peso, independentemente da molécula utilizada.
A retatrutida será o melhor remédio para emagrecer?
Com base nos dados disponíveis, sim. Ela tem potencial real para ser a molécula com maior eficácia já desenvolvida para o tratamento da obesidade. O mecanismo triplo de ação é biologicamente sólido, os resultados de fase 2 são robustos e a Endocrine Society e o PubMed já acumulam publicações relevantes sobre a molécula.
Mas "potencial" não é o mesmo que "disponível". A medicina baseada em evidências exige aprovação regulatória, dados de segurança em longo prazo e indicação individualizada. Nenhuma molécula, por mais promissora que seja, substitui a avaliação clínica personalizada.
O melhor remédio para emagrecer não é necessariamente o mais novo. É o que é indicado para você, neste momento, com acompanhamento adequado.
Essas orientações não substituem uma avaliação médica individualizada. Consulte sempre um profissional qualificado.
Um abraço,
Dr. Gabriel Magalhães
Médico CRM RJ-1040731 SP-219487
Especialista em Medicina da Família RQE 134280
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